Artigo
Chico
Mendes – O Preço da Floresta
Rodrigo Astiz
No final de 1988, quando Chico Mendes foi assassinado, eu tinha vinte anos e
confesso que sabia pouco sobre ele e a luta dos seringueiros do Acre. Da época
lembro principalmente das manchetes noticiando o assassinato e, depois, da
prisão, julgamento e condenação dos assassinos.
Por isso, quando o Discovery Channel Latin America propôs a produção de um
documentário sobre a vida e o legado de Chico Mendes, achei que era uma
oportunidade de conhecer a fundo sua história e, melhor, contá-la a toda uma
nova geração de jovens na América Latina.
A grande pergunta que me fazia era: quem afinal foi Chico Mendes?
Ambientalista? Líder sindical? Seringueiro? E o que descobri é que ele foi tudo
isso e muito mais. Foi irmão, primo, marido, pai, amigo, companheiro e tantas
outras coisas para aqueles que tiveram a chance de conhecê-lo e conviver com
ele.
Logo nos primeiros momentos da pesquisa para desenvolver o projeto, surgiram
ligados a Chico Mendes nomes como o de Mary Allegretti, Marina Silva, Jorge
Viana e Binho Marques, pessoas que nesses 20 anos se destacaram no cenário
político nacional, sempre em defesa da floresta, dos povos que vivem nela e,
principalmente, de um novo modelo de desenvolvimento para a região amazônica.
Depois, em Xapuri e nos seringais ao redor, conheci os primeiros companheiros de
Chico: o irmão, Zuza, os primos, Raimundão, Nilson e Duda, a tia Cecília, os
companheiros Osmarino, Moisés, Gomercindo e tantos outros. E ainda ouvi a
história daqueles que morreram no processo como Wilson Pinheiro e Ivair Higino.
Tendo Chico Mendes como amálgama, esses dois grupos de pessoas fizeram um
levante para barrar o avanço do processo de desmatamento que corria solto na
época transformando enormes áreas de mata em fazendas para a criação de gado. No
processo ainda criaram o conceito de Reservas Extrativistas, uma proposta
objetiva de desenvolvimento sustentável. Isso em pleno regime militar e, tanto
quanto foi possível, de forma pacífica. E numa época em que o alcance do
discurso ambiental, hoje dominante, ainda era restrito. A meu ver, isso é algo
incrível na História brasileira recente e que merece ser contado de forma mais
detalhada por que é um exemplo do que a sociedade organizada pode realizar.
Tive a sorte e o privilégio de logo nos primeiros dias de gravação ter a Mary
ao meu lado “traduzindo” esse universo até então novo para mim. E de ver a
emoção dela reencontrando velhos amigos e visitando localidades que há muito não
via, como a escola do Projeto Seringueiro, no seringal Rio Branco. Para todos
foi impressionante ver a escola cheia de crianças e adolescentes – todos filhos
de seringueiros – e ouvir seus sonhos e planos para o futuro.

Rodrigo Astiz com o professor da escola da colocação Rio Branco e com
Raimundo de Barros, primo de Chico Mendes, na Reserva Extrativista Chico Mendes,
em Xapuri, Acre, agosto de 2008
Junto com Mary tive também uma pequena amostra de como era o clima de tensão
na região na época. No período de gravação, entre maio e junho de 2008,
aconteceu em Xapuri o julgamento dos acusados de assassinar Ivair Higino, morto
em junho de 1988, seis meses antes de Chico Mendes. Os acusados eram todos da
família de Darcy Alves, condenado como mandante do assassinato de Chico. No dia
do julgamento, quando almoçávamos no restaurante da dona Vicenza, um grupo
ligado aos acusados entrou para almoçar e ao ver que Mary estava lá começou a
agredi-la verbalmente de forma indireta. Foi algo chocante tanto pela violência
das palavras quanto pela covardia do sujeito e um exemplo do tipo de gente que
Chico Mendes e seus companheiros enfrentaram há vinte anos e das táticas que
eles utilizavam.
As experiências extrativistas do Acre, especificamente da região de Xapuri,
me impressionaram muito. Sempre ouvi falar de como o desenvolvimento sustentável
é importante, do valor da “floresta em pé”, mas ver tudo isso na prática é
totalmente diferente. A impressão que tive é que sim, é possível ganhar mais
dinheiro com a floresta e seus produtos do que derrubando-a. São casos como o da
COOPERACRE tendo a frente Manuel Monteiro, um filho de seringueiro que passou
pelas escolas do Projeto Seringueiro e chegou à universidade e que consegue
juntar o conhecimento dos dois mundos para agregar valor aos produtos da
floresta e vendê-los em mercados de todo o Brasil. Ou então, da recém inaugurada
fábrica de preservativos que aumentou o valor pago pelo látex aos seringueiros e
ainda gerou empregos em Xapuri. Ou ainda a fábrica em Rio Branco que transforma
os troncos extraídos de projetos de manejo florestal em laminados de madeira que
são exportados para a Europa, entre outros lugares.
Sei que o que vi é apenas uma parte muito pequena da realidade, mas tudo isso
me faz pensar que o Acre é como um grande laboratório de experiências de
sustentabilidade onde várias iniciativas são testadas. O que acontece lá e em
outros lugares pode ser usado um dia como parte de um projeto nacional de
desenvolvimento sustentável, não apenas nas regiões de floresta, mas também
reservas extrativistas marinhas e outras que vierem a surgir. O mais importante,
na minha opinião, é agregar valor aos produtos extrativistas e construir a ponte
entre produtor e mercado consumidor.
O momento histórico não poderia ser mais apropriado e talvez os 20 anos da
morte de Chico Mendes seja a oportunidade ideal para fazermos essa reflexão.
Como todos sabem a produção de um documentário é um trabalho de criação
coletivo. Aqui vai o nome de todos que com seu conhecimento, trabalho e
dedicação realizaram Chico Mendes – O Preço da Floresta:
Direção: Rodrigo Astiz
Produção Executiva: Krishna Mahon
Roteiro: Eduardo Acquarone e Paula Knudsen
Assistência de Direção: Marcello Bozzini
Coordenação de Produção: Adriana Marques e Isabel Oliva
Produção: Adriana Oda e Carolina Sciotti
Pesquisa: Cristina Uchoa, Paula Knudsen e Stella Grisotti
Direção de Fotografia: Zé Mário Fontoura
Som Direto: Miquéias Motta
Coordenação de Finalização: Marilia Portella e Viviane Rocha
Montagem: Paulo Taman
Trilha Sonora: Plug In / Diogo Poças
Finalização de Som e Mixagem: Voxmundi Audiovisual
Locução: Nelson Gomes
Computação Gráfica: Oca Filmes
Produtores: Fabio Ribeiro, Gil Ribeiro, João Daniel Tikhomiroff e Michel
Tikhomiroff
Para Discovery Channel Latin America
Direção de Produção e Desenvolvimento: Michela Giorelli
Produção: Carla Ponte e Irune Ariztoy
Gerência de Produção: Marcela Sánchez Aizcorbe
Uma Produção Mixer para Discovery Networks Latin America / US Hispanic
FONTE (texto e fotos): www.maryallegretti.blogspot.com
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